terça-feira, 22 de junho de 2010

Dar tudo porque Cristo deu tudo



Francisco, pequeno pobre e pai dos pobres, queria viver em tudo como pobre; sofria ao conhecer outro mais pobre do que ele, não por vaidade, mas devido à terna compaixão que por eles sentia. Apenas queria ter uma túnica de tecido áspero e vulgar; e acontecia-lhe muitas vezes partilhá-la com algum infeliz. Mas era um pobre muito rico porque, levado pela sua enorme caridade a socorrer os pobres como podia, ia ter com os ricos deste mundo em tempos de muito frio e pedia-lhes que lhe emprestassem um casaco ou uma peliça. E levavam-lhos com mais pressa ainda do que aquela com que ele os tinha pedido. “Aceito”, dizia ele, “com a condição de que não esteja à espera de voltar a vê-los.” E, o coração em festa, oferecia ao primeiro pobre que encontrava aquilo que acabara de receber.

Nada lhe causava tanta pena como ver insultar um pobre ou maldizer uma qualquer criatura. Certo dia, um irmão deixou-se levar por palavras ofensivas contra um pobre que pedia esmola. “Não se dará o caso”, perguntou-lhe, “de seres rico fingindo ser pobre?” Estas palavras incomodaram enormemente Francisco, o pai dos pobres, que infligiu ao delinquente um terrível sermão, ordenando-lhe em seguida que se despojasse de todas as suas vestes na presença do pobre e lhe beijasse os pés, pedindo-lhe perdão. “Quem fala mal a um pobre”, dizia, “injuria a Cristo, de quem o pobre é o nobre símbolo neste mundo, já que Cristo se fez, por nós, pobre neste mundo.” (2 Co 8, 9).

Tomás de Celano (c. 1190-c. 1260), biógrafo de São Francisco e de Santa Clara
Vita Prima de São Francisco § 76

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