quinta-feira, 10 de junho de 2010

"Deixai vir a mim as criancinhas"


Sabeis, ó minha Madre, como sempre desejei ser santa; mas, pobre de mim! Notei sempre, quando me comparei aos santos, que há, entre eles e eu, a mesma diferença que existe entre uma montanha cujo cimo se perde nos céus e o grão de areia pisado pelos pés dos transeuntes. Em vez de me desencorajar, disse para mim mesma: Deus não seria capaz de inspirar desejos irrealizáveis: portanto, apesar da minha pequenez, posso aspirar à santidade. Fazer-me crescer é impossível; tenho de me suportar tal como sou, com todas as minhas imperfeições. Mas quero procurar o meio para ir para o céu por um caminho pequeno, bem direito, bem curto, um caminhozinho totalmente novo.

Estamos num século de invenções; agora já nem é preciso subir os degraus de uma escada; na casa dos ricos, o elevador substitui-a com vantagem. O que eu queria era encontrar um ascensor que me elevasse até Jesus, porque sou muito pequena para subir a escada íngreme da perfeição. Então procurei nos Livros Sagrados a indicação do elevador, objeto do meu desejo; e li estas palavras saídas da boca da Sabedoria eterna: "Se alguém for muito pequeno, que venha até mim" (Pr 9,4).

E eu fui adivinhando que tinha encontrado o que procurava. Querendo saber, ó meu Deus, o que faríeis vós ao pequenino que respondesse ao vosso apelo, continuei a minha procura e eis o que encontrei: "Tal como uma mãe acaricia o seu filho, assim eu vos consolarei; e pegar-vos-ei ao colo e embalar-vos-ei em cima dos meus joelhos" (Is 66,13). Ah! Nunca palavras mais ternas, mais melodiosas tinham vindo alegrar a minha alma: o ascensor que me há de elevar até ao céu, são os vossos braços, oh Jesus! Para isso, não preciso crescer; pelo contrário, tenho de ficar pequena, de tornar-me cada vez mais pequena. Oh meu Deus, vós ultrapassastes toda a minha expectativa! Eu quero "cantar as vossas misericórdias"! (Sl 88,2 vulg)

Santa Teresa do Menino Jesus (1873-97), carmelita, doutora da Igreja
Manuscrito autobiográfico

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