domingo, 16 de janeiro de 2011

Formação Litúrgica para o Povo de Deus

Foi publicada, no dia 18 de outubro, a Carta aos Seminaristas, de Bento XVI, para concluir o Ano Sacerdotal. No nº 1, o Papa exorta recordando que, "quem quer tornar-se sacerdote, deve ser sobretudo um ‘homem de Deus'", e isso significa especificamente que "o sacerdote não é o administrador de uma associação qualquer, cujo número de membros se procura manter e aumentar. É o mensageiro de Deus no meio dos homens; quer conduzir a Deus, e assim fazer crescer também a verdadeira comunhão dos homens entre si. Por isso, queridos amigos, é muito importante aprenderdes a viver em permanente contacto com Deus" (nº 1).

No ensinamento do Papa Bento XVI, a oração é um "lugar" privilegiado de aprendizagem do estilo de vida cristão. Por exemplo, na encíclica Spe Salvi, o Santo Padre apresentou a oração como um dos principais "lugares" de aprendizagem e prática da esperança cristã (cf. nn. 32-34). Também na Carta aos Seminaristas, é considerada como a maneira concreta pela qual o candidato ao sacerdócio aprende a estar em íntima e contínua comunhão com o Senhor: "Quando o Senhor fala de ‘orar sempre', naturalmente não pede para estarmos continuamente a rezar por palavras, mas para conservarmos sempre o contato interior com Deus. Exercitar-se neste contato é o sentido da nossa oração. Por isso, é importante que o dia comece e acabe com a oração; que escutemos Deus na leitura da Sagrada Escritura; que Lhe digamos os nossos desejos e as nossas esperanças, as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos erros e o nosso agradecimento por cada coisa bela e boa, e que deste modo sempre O tenhamos diante dos nossos olhos como ponto de referência da nossa vida" (nº1).

Em um trecho posterior, Bento XVI recorda que a oração, em seu estado perfeito, é o culto público da Igreja, ou seja, a sagrada liturgia e, de forma privilegiada, a Santa Missa, sobre a qual o Papa afirma: "Para uma reta Celebração Eucarística, é necessário aprendermos também a conhecer, compreender e amar a liturgia da Igreja na sua forma concreta. Na liturgia, rezamos com os fiéis de todos os séculos; passado, presente e futuro encontram-se num único grande coro de oração. A partir do meu próprio caminho, posso afirmar que é entusiasmante aprender a compreender pouco a pouco como tudo isto foi crescendo, quanta experiência de fé há na estrutura da liturgia da Missa, quantas gerações a formaram rezando" (nº 2).
A liturgia é realmente compreendida quando entramos na Tradição viva da Igreja, que recebemos como dom a ser preservado e vivido em espírito de fé e de oração. Este é, portanto, o espírito justo para celebrar e participar da liturgia. Não se trata de produzir emoções superficiais e fugazes, por meio de invenções particulares para entrar no rito, porque o verdadeiro "espírito da liturgia" é o espírito de oração adorante, de quem está "diante de Deus para servi-lo" (cf. Missal Romano [Paulo VI], "Oração Eucarística II").

O Santo Padre afirma, com base em sua experiência pessoal, que é entusiasmante aprender a compreender a liturgia com este sentido eclesial e dinâmico da verdadeira Tradição. Para isso, é necessária a formação litúrgica, que ilumina as trevas da ignorância e derruba os bastiões da ideologia, ajudando a compreender o sentido sagrado do culto divino e sua relação com toda a história da fé, que a Igreja cuida e professa em seus próprios filhos: cabeça e membros, pastor e rebanho.
A formação litúrgica não é, nem pode ser, uma forma renovada de iniciação gnóstica, um saber reservado a poucos. A formação litúrgica, embora baseada na seriedade de um estudo científico que não é para todos, deve traduzir-se de forma acessível para todos os fiéis a quem é dirigida.
Às muitas e louváveis iniciativas, no âmbito universal e local, dirigidas a cuidar da formação litúrgica do povo de Deus, acrescenta-se o nosso "Espírito da Liturgia", que abre hoje seu terceiro ano de publicação. Acolhendo muitos pedidos, decidimos experimentar, a partir deste ano, um maior corte informativo, como se notará na maior brevidade dos artigos e no número posteriormente reduzido de referências e notas. Esta escolha sacrifica, por um lado, o justo desejo dos escritores de dar mais detalhes e referências sobre as questões tratadas, mas esperamos que possa incentivar, por outro lado, uma difusão mais ampla das nossas reflexões, para chegar a um maior número de leitores. A eles se dirige, desde já, a gratidão dos autores do "Espírito da Liturgia", pela fidelidade e atenção com que nos acompanharam ao longo dos últimos dois anos e com que acreditamos que desejarão continuar a leitura.

*O Pe. Mauro Gagliardi, doutor em teologia e filosofia, é professor de teologia dogmática no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum, de Roma, e consultor do Ufficio delle Celebrazioni Liturgiche do Sumo Pontífice

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